Circuito ACDME 2
Texto e fotos: Ricardo Grilo
Os Clássicos salvaram a festa
Poucos carros, divulgação inexistente, publico ausente, pista mais lenta que o habitual... Tudo indiciava para um fim de semana monótono neste circuito ACDME 2. No entanto, existiram motivos de interesse em todas as corridas, principalmente entre os poucos inscritos do Campeonato de Portugal de Clássicos, que disputaram duas das corridas tão renhidas como interessantes.
CPCC - 1
Apenas 10 concorrentes alinharam à partida da primeira das duas corridas do CPCC. António Nogueira, a disputar o campeonato com Alexandre Rebelo, viu-se obrigado a renunciar, devido a problemas irresolúveis com a caixa de velocidades seu Escort RS. O melhor tempo foi para Joaquim Jorge, com 1:55.913, seguido de Rebelo (1:57.006), Barros (1:58.110) e José Luís Moura, cujo Escort não cessa de evoluir de prova para prova.
A partida foi animada, com Alexandre Rebelo a impor-se aos seus rivais, e a comandar as primeira volta, seguido de JJ e Barros. Depois, Barros conseguiu inverter as posições, passando para o comando, mas sempre em luta constante com os adversários que nunca desarmaram. Pela 3ª passagem na meta, Barros fez a melhor volta da corrida, tentando afastar-se de Jorge e Rebelo, mas estes reagiram muito bem, e se Joaquim Jorge foi obrigado a ir à box trocar de pneus logo depois de ter feito a sua melhor volta, Alexandre Rebelo iniciou uma série de voltas no segundo 56' que o levaram a bater o Porsche branco e passar para o comando. Inconformado, Barros passou a rodar sempre muito perto, a ensaiar diversas maneiras de ultrapassar o Porsche verde. Aliás, partindo do princípio que Rebelo teria pouca experiência de liderar uma prova deste calibre, era uma táctica que poderia aportar alguns resultados. Acabou por suceder a três voltas do fim, quando Rebelo falhou uma travagem à entrada da variante e cedeu o comando a António Barros, que o manteve com facilidade até final, vencendo mais uma corrida do campeonato nacional de clássicos.
A propósito, refira-se que Barros tinha sido obrigado a mudar o motor durante os treinos e a unidade de reserva possuía menos alguns cavalos que o habitual, mas por outro lado, a suspensão do carro da Garagem Aurora, com molas progressivas mais grossas e muito bem afinada, estará possivelmente um pouco mais eficaz que a do carro da Sportclasse. Este último, com um motor novo feito na Alemanha, poderia ter mais alguns cavalos que os seus adversários, mas não tantos como alguns avançavam. Quanto ao Escort, a vantagem reside no peso pluma e ao equilíbrio do conjunto, com o piloto sentado quase ao centro do carro.
As velocidades máximas alcançadas poderão ser uma boa referência para avaliar a qualidade dos carros e dos seus motores, com razoável equilíbrio para os três primeiros:
Alexandre Rebelo 229,9 km/h
António Barros 228,2 km/h
Joaquim Jorge 227,3 km/h
José Baptista 224,5 km/h
José Luís Moura 218,2 km/h
Como curiosidade, somos levados a presumir que as potências dos carros deverão ser algo semelhantes, com os flat-6 dos Porsche a rondarem os 330 cv (nesta corrida, um pouco menos no caso do Barros) e o Ford BDG-Richardson de Joaquim Jorge talvez a passar um pouco dos 300 cv.
O duelo entre os dois Porsche e o Escort foi, de facto, muito interessante, até porque os pilotos são muito rápidos, agressivos e simultaneamente correctos, apresentando um espectáculo de qualidade que é um prazer de ver e um exemplo a seguir. Parabéns aos três!

Partida da corrida 1: a primeira linha da grelha contava com Joaquim Jorge e Alexandre Rebelo. O piloto madeirense não se deixou intimidar pela qualidade dos adversários e partiu ao ataque, tendo sido o primeiro comandante da prova. Na foto, pouco depois do arranque, vemos Rebelo e Barros nos Porsche Carrera RSR, seguidos de 3 Ford Escort: de Joaquim Jorge, José Luís Moura e José Baptista.

As mudanças de posições entre os três homens da frente foram uma constante da primeira corrida. No entanto, Joaquim Jorge viria a atrasar-se com dois furos (talvez devido a problemas com as jantes), Rebelo faria um pião à entrada da variante e o sempre combativo António Barros viria a ser um merecido vencedor desta prova matinal.

Francisco Pinto regressou com este BMW emprestado, depois de ter destruído o seu carro habitual no acidente de Vila Real. Logo à partida, uma pedra projectada por um dos Ford Escort partiu o pára-brisas e comprometeu o desempenho nesta prova, apesar de ter conseguido rodar a uns impressionantes 187 km/h, sem o dito vidro! No intervalo entre as duas corridas, foi possível encontrar um novo vidro e reparar o BMW a tempo de alinhar na corrida da tarde.

Kiko Mora pouco antes de desistir com o Ford Escort RS made by Aurora.

Excelente prestação de José Luís Moura com o novo Escort RS 1800, capaz de rodar praticamente ao nível dos melhores. Na primeira corrida protagonizou um duelo com José Baptista, este ao volante do antigo Escort RS de Joaquim Jorge. Na segunda conseguiu rodar sempre perto dos primeiros, deixando no ar a certeza que em breve haverá mais um candidato ao triunfo no CPCC. Como curiosidade, o anterior carro de J.L. Moura, o mítico RS 1800 que foi de António Rodrigues, está agora tipificado para ralis e foi substituído por este modelo específico para provas de velocidade.

Domingos de Sousa Coutinho, com o habitual BMW 2800 CS, divertiu-se com os seus longos slides em diversos pontos do traçado, com o foi o caso desta foto feita à saída da curva 3.

Pouco antes de triunfar na primeira corrida do CPCC, António Barros na grelha de partida ao volante do habitual Porsche Carrera RSR da Garagem Aurora. Na origem, em meados dos anos 90, este carro foi feito na Sportclasse para Rodrigo Gallego correr no campeonato de clássicos. Depois passou por várias vidas, chegando a ser do piloto de Cascais Mário Silva, que o usou brevemente. Mudando-se para o Norte, o RSR passou a ser assistido durante alguns anos na Auto Mapusi (do mecânico Mário Silva) e pilotado por António Barros. Recentemente, Barros reencontrou a mítica Garagem Aurora onde o seu pai tinha escrito algumas das mais belas páginas da sua carreira. Desde então passou a ser assistido pela equipa do Mestre Eduardo que reviu integralmente o carro, mostrando que os Porsche eram de novo os carros a bater nos clássicos portugueses e somando mais alguns importantes triunfos ao seu currículo.
CPCC - 2
A segunda corrida foi também muito interessante no que respeita à luta pelo comando. Sempre juntos desde a partida, Rebelo, Barros e JJ, com José Luís Moura a segui-los de perto, mantiveram um ritmo elevado, com alguns momentos emocionantes. O primeiro comandante foi António Barros, mas na segunda volta foi passado por Rebelo e JJ. Pouco depois, Joaquim Jorge então no segundo lugar, falhou uma tentativa de ultrapassagem ao Porsche de Rebelo e fez um "tete", à entrada da variante, sensivelmente no mesmo local onde Rebelo tinha perdido a corrida anterior. Pouco depois deste incidente, que atrasou um pouco o piloto de Penafiel, Barros conseguiu passar Rebelo e recuperar a liderança... para desistir pouco depois com o motor avariado. Rebelo ficou de novo no comando, mas a corrida não estava concluída, tendo este ainda que suportar o assalto final de um motivado Joaquim Jorge. Até porque Alexandre Rebelo julgava que o piloto do Escort tinha desistido e após o abandono de Barros julgou que tinha a corrida ganha, deixando de se preocupar com os seus perseguidores, o que terá facilitado um pouco a aproximação de JJ - nessa fase da corrida a rodar cerca de 1 segundo mais rápido que Rebelo - conseguindo desse modo recuperar o terreno perdido para o Porsche e cortar a meta praticamente a par com o vencedor. Um final memorável!
Nas contas do campeonato, Rebelo mantêm-se na liderança, agora com 45 pontos, seguido de Barros, com 35.5, e de Joaquim Jorge, com 29. Ao não conseguir alinhar no Estoril, António Nogueira manteve os mesmos 27 pontos e perdeu o segundo lugar com que tinha saído de Vila Real.

Momento chave da segunda corrida: na segunda volta Joaquim Jorge vê Rebelo abordar a variante "por fora" e tenta a passagem pelo espaço livre...

Quando Rebelo entra para a curva seguindo a sua trajectória normal, o piloto do Escort vê-se sem espaço e trava forte para evitar bater (na realidade terá dado um ligeiro toque, sem consequências, na traseira do Porsche)...

...atravessando-se...

...e acabando a aventura com o carro virado para o sentido errado. Os segundos aqui perdidos seriam fundamentais para a sorte da corrida.

Sempre em luta constante com Joaquim Jorge e António Barros, Alexandre Rebelo conseguiu manter-se no comando até à 5ª volta.

Mais animação era difícil: após várias tentativas, Barros conseguiu passar o piloto madeirense no decurso da 5ª volta... para ser novamente passado na 7ª volta e partir o motor na volta seguinte. Mas a emoção não tinha terminado. Até ao final da corrida Joaquim Jorge, recuperado do seu "tete", foi aproximando-se de Rebelo e cortou a meta praticamente ao lado do Porsche verde, a uns escassos 0,058' do primeiro lugar!

A vantagem de uma escapatória: na segunda corrida Francisco Pinto ficou sem travões e saiu em frente na variante, precisamente no local onde nós estávamos. O piloto olha para a câmara, provavelmente rogando-nos uma praga: pela segunda corrida consecutiva despistou-se mesmo em frente à nossa objectiva. Felizmente, que o circuito do Estoril é muito mais permissivo que Vila Real, onde em circunstancias idênticas, o piloto destruiu o seu anterior BMW.

Os três primeiros da segunda corrida
CPCC 1300
Reflectindo também o ambiente de crise que grassa na velocidade nacional, os 1300 apenas contaram com 11 concorrentes à partida. Alexandre Beirão, com o Alfa Sud preparado pela Fábrica Italiana conseguiu o melhor tempo dos treinos, com o expressivo tempo de 2:02.162, mas acabaria por partir das boxes. A prova foi dominada por Miguel Ferreira que venceu aqui pela primeira vez com o seu Escort 1300. Fernando Soares, em boa forma, rodou sempre em segundo, sem dar hipóteses a Paulo Antunes, 3º clasificado. Luís Alegria, o habitual dominador destas corridas, tinha conhecido diversos problemas com o motor do Datsun e estava a rodar abaixo do seu normal desempenho, quedando-se por um relactivamente modesto 4º posto da geral. De realçar o bom 7º posto de Veloso Amaral e a velocidade de ponta do Datsun 1200 Coupé de João Carlos Torres, que rodou a 197 km/h, marca que sem constituir um novo recorde da categoria, não deixa de ser notável para um carro com motor de 1300cc construído no início da década de 70.
Na segunda corrida, Miguel Ferreira voltou a dominar, desta vez seguido por Alegria e Soares, numa corrida menos emotiva que o habitual entre os 1300.

Uma pole perdida: Alexandre Beirão alcançou o melhor tempo nos treinos, mas o piloto da Fábrica Italiana hipotecou a vantagem que tinha conquistado quando decidiu passar mais uma vez pelas boxes... e a saída destas encontrava-se já fechada. Alegadamente, faltavam 5 minutos para o início da corrida. De facto, não foi bem assim e a corrida começou cerca de 10 minutos mais tarde. O esforço que Beirão exigiu ao motor para recuperar o tempo perdido foi fatal para a mecânica, levando o Alfasud Sprint à desistência na primeira corrida. De algum modo, foi uma jornada para esquecer entre as hostes da equipa de Paços de Ferreira: além dos azares de Alexandre Beirão, Rufino Fontes adiou o regresso às competições devido a um problema de carburadores nos treinos e Bernardo Sá Nogueira desistiu na primeira corrida devido a uma jante fora do sítio.

Miguel Ferreira, com o Ford Escort, venceu pela primeira vez uma corrida do CPCC 1300.

Fernando Soares em grande forma, foi um dos intervenientes na luta pelas primeiras posições entre os 1300.

Fernando Soares pouco antes do início da primeira corrida onde viria a alcançar o 2º lugar da geral.

A segunda corrida ficou marcada por mais uma demonstração de superioridade de Miguel Ferreira, com o Escort. Na imagem, seguido por Luís Alegria (que tem conhecido diversos problemas de motor) e Paulo Antunes, ambos nos super Datsun 1200 que normalmente ditam a lei nas corridas do CPCC 1300.
CPR

Rodrigo e Francisco Gallego alinharam finalmente com o Radical SR8 e dominaram sem esforço as duas corridas do Campeonato de Portugal de Resistência

ALMS no Estoril? Protótipos e GT's belos e exóticos, em luta numa prova de longa duração. O Campeonato Português de Resistência possui alguns ingredientes que lhe permitem sonhar com a hipótese de vir a ser uma competição de sucesso. Assim sejam tomadas as medidas necessárias para promover condignamente as provas e atrair novos concorrentes. Na foto, atrás do inalcançável Radical SR8 dos irmãos Gallego, a luta pelo 2º lugar, com o CVO de Luís Martins, na frente do Porsche 911 GT2 de António Coimbra e do Radical SR3 de Pedro Estrela. No final, as posições seriam invertidas, com Estrela a alcançar o 2º posto da geral, seguido do Porsche (3º da geral e vencedor dos GT) e do CVO.

Com o "Formula G", Fernado Gaspar (pai e filho) devem usufruir de uma das melhores relações preço-diversão dos circuitos portugueses. O pequeno sport-protótipo que faz lembrar a linha de um Panoz LMP1 tem um cantar delicioso e um comportamento "à antiga" que o deve tornar num verdadeiro desafio para os seus pilotos.

Um clássico no meio dos protótipos: João Carlos Torres decidiu inscrever no Campeonato Português de Resistência o Porsche Carrera RS com que costumava alinhar nos ralis de regularidade. O carro, ainda num estado prematuro de desenvolvimentos, foi construído na segunda metade de 1973 e é um dos primeiros 911 "Série G", ou seja, um exemplar bastante raro que corresponderá aos últimos 50 Carrera 2.7 que foram construídos. Preparado na Garagem João Gomes, a sua condução é partilhada entre o proprietário João Carlos Torres e o filho do preparador, José Carvalhosa.

Um dos momentos quentes das corridas de resistência é a troca de pilotos. Na imagem, o Radical SR3 de Hugo Pereira e Filipe Carvalho que viria a desistir pouco depois. À direita, na foto, vemos o pai de Hugo Pereira, o conhecido Tino Pereira que se celebrizou nos anos 70 e início de 80, tanto em Angola como em Portugal, ao volante dos seus De Tomaso Pantera.
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Apontamento de reportagem
CNV 1982 ou Le Mans Classic 2008?
Patrick Hals com o antigo de Tomaso Pantera de Tino Pereira, numa prova de clássicos, em SPA Francorchamps. Quando acompanhou recentemente o seu filho Hugo a uma corrida em SPA, Tino Pereira reencontrou o antigo De Tomaso Gr.4, agora propriedade de Patrick Hals. Na sequência desse encontro, o piloto e coleccionador belga terá decidido manter a decoração original que o De Tomaso ostentou no Campeonato Nacional de Velocidade de 1982 e correr assim em diversos eventos internacionais de clássicos, nomeadamente o Le Mans Classic. (foto col. Patrick Hals)
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