MARCH 74S #11  UM CARRO HISTÓRICO PORTUGUÊS

por Ricardo Grilo

 

     

 Carlos Diniz, com o March 74S #11, na corrida nocturna do TNCV/CNCV, disputada no circuito da Boavista de 2007  (foto: Ricardo Grilo)

 Carlos Diniz adquiriu em 2003 um March 74S para correr no campeonato português de clássicos, competição onde, após um período de adaptação, passou a ser um dos mais assíduos candidatos ao triunfo. Este 74S, com o chassis #11 e equipado com um motor BDG, tem um historial relativamente mal conhecido pela maioria dos entusiastas e, até ter sido publicado este modesto artigo, mesmo alegados especialistas britânicos revelavam alguma ignorância acerca dos primeiros meses do seu percurso,  desde o momento em que foi produzido no ano de 1974. O que não deixa de ser normal, pois sabemos por outros casos em que ajudamos alguns proprietários a reconstruir o passado dos seus carros, que as corridas portuguesas eram -até à criação do Sportscar Portugal- uma matéria tabu entre os coleccionadores e entusiastas estrangeiros. Por exemplo, as carreiras nacionais do Lola T280 do Team Bip, do Ford GT40 do Carlos Gaspar e dos Porsche 906 e 907 de Carlos Santos, estavam até há pouco tempo totalmente ausentes dos documentos oficiais onde constava o alegado historial das referidas viaturas.

Voltando ao caso do March 74S de Carlos Diniz, segundo consta no passaporte FIA, o primeiro proprietário foi o  britânico Mike Beuttler, piloto que tinha ficado conhecido pelas suas participações no campeonato mundial de Fórmula 1, entre 1971 e 1973. Nos documentos emanados pela autoridade desportiva britânica, consta também que este carro, com o chassis #11, participou com Mike Beutler e Colin Adrews nos 1000 km de Brands Hatch, prova do campeonato do mundo de construtores.

Certo também é que nos 1000 km de Brands Hatch, o March 74S #11 foi inscrito pela equipa Paulenco Racing, formação britânica liderada por Paul Lennon, que possuía um outro 74S, cujo número de chassis desconhecemos. A equipa usava um camião de transporte adquirido à March e uma auto caravana que -muito provavelmente - tinha sido do malogrado piloto de F1 Roger Williamson. Como escreveu o antigo piloto John Sheldon numa conversa sobre o tema, retirada do fórum britânico Ten tenthsem 1974 o Team adquiriu dois March 74 S com recurso a crédito bancário. A primeira corrida planeada foi SPA, mas nenhum dos carros conseguiu alinhar à partida.  No caso do meu carro foi devido a um problema de embraiagem. A corrida seguinte foi uma prova de Interseries em Silverstone. Depois a equipa foi para Jarama, e Emílio Zapico, com o dinheiro do patrocínio do Sherry Garvey, instalou um novo motor BDG. Refira-se que originalmente, os March da Paulenco possuíam motores FVC 1800 de 250 cv e, de acordo com um artigo da época,  estava prevista a sua substituição pelos mais potentes FVC de 2 litros, feitos por Richardson e capazes de debitar 275 cv. Terão sido afinal BDG's? Seja como for, Sheldon esqueceu-se de referir (ou desconhecia) que o primeiro dos March 74S da equipa alinhou nos ensaios das 24 Horas de Le Mans e na corrida de 4 horas disputada como era hábito, no mesmo fim-de-semana dos ensaios.

O piloto destacado para as 4 Horas foi o espanhol Emilio Zapico que conseguiu um honroso 11º tempo dos treinos, com 1:18.2, o melhor entre os Sport de 2 litros (Zapico correu entre os anos 60 e 80, e faleceu em 1996, num acidente aéreo no campeonato espanhol de ultra-ligeiros). Em Maio, a Paulenco inscreveu dois March 74S (John Sheldon/Ray Johnson e Emilio Zapico/ Alan Stubbs) nos 1000 km de SPA e, finalmente, na prova do Campeonato Europeu de Intersérie que Sheldon refere no seu testemunho, disputada em Silverstone no mesmo mês de Maio (apenas com Sheldon e Zapico ao volante).

Depois seguiu-se Clermont-Ferrand e, no dia 30 de Junho, os 1000 Km de Österreichring, a 6ª prova do mundial da especialidade. Nalguns registos sobre o mundial de marcas de 1974, os March da Paulenco são referidos como tendo usado motores BMW nos 1000 km de SPA e nos 1000 km da Áustria (Österreichring) , mas esta hipótese não nos parece minimamente credível, porque não fazia qualquer tipo de sentido andar a alterar a marca dos motores de prova para prova (ainda para mais, numa equipa de fracos recursos como a Paulenco). Aliás, John Sheldon não refere essa hipótese no seu relato, tal como os artigos das revistas da época que não referem outra coisa que não os motores Ford FVC e BDG (um deles, na revista Hot Car,  testa detalhadamente o primeiro dos March 74S Ford da Paulenco) .

Como se sabe, a parte até agora conhecida da carreira do #11 e que consta nos documentos que acompanham o carro, prende-se com a participação desta viatura na prova britânica do Mundial de Construtores, disputada em Setembro de 1974, mas o Sportcar Portugal descobriu que o referido March 74S #11 terá sido precisamente o mesmo carro que Helder de Sousa utilizou na Temporada Angolana desse ano!

Após alguns contactos iniciais, tudo se confirmou cerca de um mês após a prova austríaca do mundial de marcas,  em Junho de 1974, quando a Paulenco Racing cedeu os seus dois March 74S ao Team ETA-Mocar (ETA significava Empresa de Tabacos de Angola). Terá sido esse o motivo pelo qual a equipa não alinhou nas 24 Horas de Le Mans, onde tinha  inscrito um 74S para a tripla Emilio Zapico/ Yves Martin / Alan Stubbs), mas que a oportunidade de rentabilizar o investimento com o aluguer aos portugueses de Angola falou mais alto que a participação na prova francesa.

A equipa Eta-Mocar alinhou então com os dois carros na Temporada Internacional Angolana que se disputava entre os meses de Julho e Agosto, sendo um dos carros entregue a Larama (que,  consoante as provas, o partilhou com Roy Johnson e John Sabourin) e e o outro, com o chassis #11, entregue ao nosso amigo Helder de Sousa que o dividiu com o espanhol Artemi Prats. A decoração do patrocinador Angolano (os cigarros Lis) obrigou, já em Angola, à pintura dos dois March (que até então tinham sido azul escuro e rosa) num dourado metalizado de bonito efeito:   o dourado era o mesmo dos Lotus Europa do Team Lis e até o meu capacete foi pintado com o mesmo dourado, recorda Helder de Sousa. Note-se que os maços de tabaco Lis eram de cor de ouro e daí a necessidade de pintar os carros. Mas, afim de se poderem distinguir entre si, a decoração dos dois March não ficou exactamente idêntica: o # 11 de Helder de Sousa/Artemi possuía o spoiler e os espelhos retrovisores em laranja fluorescente e o outro carro da equipa, (Larama/Johnson), apresentava o nariz e os espelhos em preto mate. Outra modificação feita em Luanda foi o alargamento das entradas de ar laterais, para melhorar o arrefecimento dos radiadores, sob o intenso calor africano.

 

     

Angola 1974: Helder de Sousa com o March 74S #11. Note-se a frente original do modelo 74S que viria a ser modificada após a Temporada Angolana. De notar também o quadrado vermelho na deriva do aileron, onde estava afixada a flor-de-lis que, curiosamente, continuou a fazer parte da decoração durante os 1000 km de Brands Hatch, prova do Mundial de Marcas disputada em Setembro..

Os carros competiram com algum sucesso nas 3 corridas que compunham a temporada internacional angolana, sendo os melhores resultados respectivamente o 1º lugar de Larama/Johnson nas 2 Horas de Luanda, o 2º posto de Larama/Johnson nas 6 Horas de Nova Lisboa e o 4º posto de Helder de Sousa e Artemi nas 2 Horas de Beguela. Foi nesta prova, dividida em duas mangas e com o resultado obtido pela soma dos tempos, que Helder de Sousa alcançou o seu momento de glória quando venceu a segunda manga, que correspondia ao seu turno de condução. Segundo Helder de Sousa, os March eram muito piores que os Lola T292, revelando um comportamento difícil e tinham a frente muito instável. Já em Angola tínhamos adaptado um pequeno spoiler para tentar criar algum apoio suplementar. Finda a temporada, em Agosto, os dois March 74 S regressaram ao Reino Unido a tempo de participar nos referidos 1000 km de Brands Hatch. De Angola trouxeram (e mantiveram) a cor dourada, as flor-de-lis nas derivas do aileron, as rodelas brancas onde assentavam os números laterais, as entradas de ar laterais alargadas e... o competente Larama que tão bom andamento tinha revelado nos circuitos africanos! Eu também fui convidado para correr com eles em Inglaterra, mas as condições oferecidas eram pouco convidativas e apenas o Larama foi com a equipa, diz-nos Helder de Sousa. No entanto, já em Inglaterra e antes de participar na manga britânica do Mundial de Marcas, ainda houve tempo de alterar as frentes dos dois March, acrescentando um grande lábio de duvidosa elegância, com o intuito de melhorar o apoio aerodinâmico da frente. Esta alteração modificou também os faróis que agora passaram a ser mais pequenos (ver desenho anexo). No entanto, note-se a manutenção da cor dourada, das entradas alargadas e da flor-de-lis dos tabacos angolanos Lis.

  

 March 74S #11 de Beutler/Andrew nos 1000 km de Brands Hatch de 1974    (Rui Queirós)

As equipas nomeadas para os 1000 km foram John Sheldon e Larama para o carro com a frente e espelho em preto mate (Nicha Cabral chegou a estar inscrito, mas por qualquer motivo que desconhecemos, não esteve presente) e Mike Beuttler e Collin Andrews para o carro com o espelho e frente laranja Day-Glo, ou seja, o nosso chassis #11. A corrida foi muito curta para o Paulenco Racing, pois Beuttler, que tinha feito um mediano 16º tempo dos treinos, foi o primeiro concorrente a desistir devido a um problema de motor, decorridas apenas 9 voltas de prova. O antigo piloto de F1 dava assim por concluída uma carreira desportiva que entre outros factos foi marcada pela presença em 28 GP's de F1 e 2 provas do Mundial de Marcas. O outro carro da equipa tinha partido de um ainda mais modesto 24º posto da grelha e abandonou devido a um acidente na 12ª volta, antes do turno de condução do jovem Larama.

John Sheldon acrescenta aqui um detalhe interessante: por esta altura, Paul Lennon (NDR: o líder da equipa) abriu falência e perdeu tudo o que possuía.  Mesmo assim, a Paulenco Racing ainda alinhou em Outubro com dois March 74S na derradeira prova do Europeu de Sport 2 litros, as 2 Horas de Jarama. Nesta corrida estiveram presentes dois pilotos portugueses, respectivamente Lumaro, com o habitual GRD S73 #73 e Nicha Cabral, ao volante de um dos March da Paulenco. O outro 74S da equipa foi novamente entregue a John Sheldon e no final ficaram respectivamente em 8º e 7º da geral, numa prova dominada pelos Alpine Renault A441. Mais uma vez, recorremos ao testemunho de Sheldon: eu guiei um dos carros e o Cabral o outro. Chegou a falar-se na hipótese de ser o Mike Beuttler a correr nessa prova, mas eu tinha um contrato com eles e foi esse que acabou por ser honrado. No entanto, não nos é possível determinar quais os chassis que calharam a cada equipa. Até porque por esta altura, os March já tinham perdido a cor dourada de Angola e estavam de novo decorados com o azul escuro e rosa da Paulenco. Mantinham, no entanto, o grande lábio dianteiro que tinham estreado com bons resultados nos 1000 km de Brands Hatch e a entrada de ar superior, vinda de Angola. Depois de Jarama, refere Sheldon, os carros e o camião ficaram escondidos na Alemanha, para evitar cair nas mãos dos credores de Lennon...

 

Jarama 1974: Nicha Cabral com um dos March 74S da Promoto/Paulenco Racing. Note-se o nariz alongado, referido no texto. Embora a foto seja a preto e branco,  a decoração era no habitual azul escuro e rosa da equipa. (foto: colecção Nicha Cabral, retirada do livro com o mesmo nome, de Adelino Dinis)

De acordo com os documentos FIA do carro, no ano seguinte, isto é, em 1975, o chassis #11 de Mike Beutler correu no RAC Sportscar Championship, com o amigo Colin Andrews ao volante. O documento apenas refere o número de chassis, mas não especifica qual a carroçaria que o carro dispunha neste segundo ano de actividade. No entanto,  partilhamos aqui uma hipótese bastante credível avançada por alguns  especialistas da marca britânica, segundo a qual,  após a época de 1974, estes dois carros do Paulenco Racing foram convertidos para o padrão 75S e correram em algumas provas do Mundial de Marcas de 1975, sob as cores do Team Alroy (de ALan Stubs e Roy Johnson, dois ex-mecânicos e pilotos da antiga Paulenco Racing). Para confirmar esta hipótese, socorremo-nos, mais uma vez, do testemunho de John Sheldon: para 1975, os dois carros foram modificados pelo Allan e pelo Roy com as carroçarias dos novos 75 S e passaram a correr como Alroy Racing.

Esta possibilidade ganha ainda maior consistência quando verificamos que Colin Andrews esteve inscrito com um destes March 75S, em duas provas do Mundial de 1975, sendo muito provável que tenha disputado as provas do campeonato britânico e do Mundial de Construtores em paralelo, com o mesmo carro. Ora foi precisamente num destes March 75S do Team Alroy que Mário de Araújo Cabral correu em algumas provas do Mundial de 1975. Mas, sendo praticamente assente que se deu esta metamorfose, não podemos adivinhar em qual dos dois chassis se terá sentado o piloto português. Digamos que, se aconteceu realmente essa conversão dos 74S Paulenco nos 75S Alroy, existem 50% de possibilidades de em 1975 Nicha Cabral ter corrido ao volante do "nosso" #11.

 

  

 1000 km de Östrreichring de 1975: Nicha Cabral ao volante do March 75S da Alroy Racing, que partilhou com Brett Lunger.   (foto: colecção Nicha Cabral, retirada do livro com o mesmo nome, de Adelino Dinis)

O resto da carreira do carro até chegar às mãos de Carlos Diniz está bem explicado na documentação que acompanha o carro: Em 1976 o carro foi vendido por Mike Beutler a Tony Vlassopoulos, piloto grego que o manteve entre 1976 e 1986. Com ele terá feito provas do campeonato helénico de montanha, entre 1976 e 1978. Segundo alguns autores, este 74S #11 poderá ter corrido nos campeonatos de protótipos da Argentina, de onde terá regressado novamente com uma carroçaria de 74S e decorado com as cores da Marlboro. Mas esta hipótese está ainda por confirmar. Certo é que após Vlassopoulos o #11 passou para as mãos de Robin Smith que por sua vez o vendeu em 1991 a John Hart. Este britânico conservou o carro até 1995 e depois vendeu-o a Pierre Haverland que por sua vez o cedeu a Mike Simpson. Em 2003 veio para Portugal pelas mãos de Carlos Diniz e desde então tem estado sempre à guarda do piloto portuense, que além da condução, também assegura pessoalmente a manutenção do carro. Agora o carro possui uma entrada de ar lateral de origem (a sobrelevada que se vê nos carros da Paulenco Racing era uma modificação própria da equipa) encontra-se pintado num azul Benneton (o antigo proprietário possuía vários Benneton ex-Schumacher e pintou o March de modo a combinar com o azul dos F1!) e, à boa maneira dos protótipos portugueses do TNCV, deixou de ostentar os faróis dianteiros. Mas o chassis é mesmo o #11 cuja história aqui contamos.

A novidade é verificarmos agora que esta aquisição devolveu a Portugal um veículo histórico, com uma importante ligação ao passado do desporto automóvel nacional, ou melhor dizendo, do conjunto dos territórios onde então flutuava a bandeira das quinas. Após a recuperação do GRD S73 #072 ex-Team Palma e do regresso de um dos Lola T292 ex-Team Bip este March 74S #11 é o terceiro protótipo histórico de Grupo 5 - 2 litros que na actualidade pode ser visto em Portugal.

 

Paulenco - March 74 S  em 1974:

 

                                           Chassis #09                                                                     Chassis #11

 

  Abril                     Ensaios Le Mans       NQ

  Abril                    4 Horas de Le Mans  

  Maio                   1000 km SPA                 NQ                                                 1000 km SPA           NA

  Maio                   Silverstone (Interseries)                                                    Silverstone (Interseries)

 Junho                 Clermont-Ferrand - Charade                                            Clermont-Ferrand - Charade

 Junho                1000 Km Österreichring                                                     1000 Km Österreichring     

Julho/ Agosto   Temporada Angolana :                                                       Temporada Angolana :

                        6 H Nova Lisboa, 500 km Benguela, 2 H Luanda                  6 H Nova Lisboa, 500 km Benguela, 2 H Luanda           

Setembro           1000 km Brands Hatch                                                       1000 km Brands Hatch

Outubro               2 Horas Jarama                                                                    2 Horas Jarama

 

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