Sir Stirling Moss na Boavista

Por Carlos Gilbert

 

Há por vezes decisões que se tomam e mais tarde se acha que podem ter sido precipitadas. Uma delas foi a que Stirling Moss tomou quando resolveu abandonar a carreira activa de piloto após o gravíssimo acidente em Goodwodd, no ano de 1962. Foi o próprio a concedê-lo anos mais tarde, mas verificamos hoje que achou por bem regressar ao volante de competições, desta feita ao volante do seu recém-restaurado Osca FS 372. Se já no ano transacto se tinha inscrito para a manga de Spa do prestigiado "RAC Woodcote Trophy", realizada a 1 de Outubro na pista belga, prova que venceu na sua classe, este ano consta da lista da prova mais conhecida do mundo da "endurance" dos Clássicos: o "Le Mans Legend", onde participará na Classe 3 (1954-1957, abaixo de 2000cc), ao que consta com o seu carro já pintado do tradicional vermelho italiano.

Tal facto reveste-se de um significado mais que especial, se tivermos em conta que o piloto inglês irá completar este ano os 80 anos de idade mas, tal como o "nosso" Manoel de Oliveira, parece haver pessoas para quem a idade só passa nas folhas do calendário... Stirling Moss irá participar no seu carro de Sport construído em 1956 pelos irmãos Maserati que após venderem a sua marca à família Orsi se dedicaram à construção de viaturas de "Sport" leves e de baixa cilindrada. E é com este clássico da construção artesanal italiana que Stirling Moss irá estar presente também no "Circuito da Boavista", no Porto, em meados de Julho! Em breve retomaremos este tópico, logo que se a lista de inscritos para a terceira edição da prova no circuito portuense se torne pública.

 

      Osca FS 372 de Stirling Moss

 

Um encontro... meio século mais tarde

No já longínquo ano de 1958, no Porto, um miúdo de dez anos vibrou de forma intensa com os bólides de Fórmula 1 que vira evoluir a velocidades nunca vistas pelas ruas do Porto, no "circuito da Boavista". Stirling Moss, Mike Hawthorne, von Trips, Gigi Villoresi, Tony Brooks foram nomes que ele fixou e nunca mais lhe saíram da memória. O entusiasmo foi crescendo até se tornar obsessão, e ele tomou a iniciativa de ir ao ACP saber das moradas dos seus heróis. Escreveu cartas de entusiasmo a dois dos pilotos, àqueles que entendeu serem os que mais impressão lhe causaram, Moss e von Trips. Ambos tiveram a gentileza de lhe responder, mesmo sabendo tratar-se de um miúdo que lhes estava a escrever. A um, von Trips, dedicou-lhe passado muito pouco tempo sentidas lágrimas, num início de Setembro em que houve a fatídica prova em Monza, ao outro, teve a ocasião de lhe agradecer há dias e em pessoa a gentileza, no mesmo local em que o vira vencer há uns 50 anos atrás... estando já a sentir o mesmo tipo de excitação por ir vê-lo evoluir no mesmo circuito, em meados de Julho próximo, num carro de Sport de eleição, o seu Osca FS372, concebido pelos irmãos Maserati.

Carlos Gilbert

 

 

Porto 2009: Stirling e Susie Moss  (Carlos Gilbert)

 

 

Algumas notas sobre um grande piloto

Como se sabe, foi anunciada a presença no Circuito histórico da Boavista de Sir Stirling Moss, certamente o mais brilhante piloto britânico dos anos 50, que se inscreveu com o seu Osca para a corrida dedicada aos Sport-protótipos até 1971.

Stirling Moss correu na Fórmula 1 entre 1951 e 1962, com carros tão diferentes como os Maserati, Cooper, Vanwall, Ferguson, Mercedes, HWM, Connagaught, BPR e Walker e terá sido o único piloto capaz de rivalizar com a mestria de Juan Manual Fangio. Com a retirada do argentino em 1958, Moss passou a ser, incontestavelmente, o melhor piloto do mundo, até que no início de 1962, um acidente numa prova extra-campeonato, em Goodwood o atirou por algum tempo para a cama do hospital. Recuperado fisicamente, Moss considerou não ter mantido todas as suas capacidades para continuar a ser um piloto de bom nível, e como tal, optou por abandonar os palcos da competição. Às suas 16 vitórias em Grandes Prémios, devemos somar os 14 triunfos em provas do Campeonato Mundial de Marcas, obtidas num período situado entre as Mille Miglia de 1953 e as 12 Horas de Sebring de 1962, a derradeira corrida deste campeonato em que participou.

Em Portugal, Moss venceu o Circuito de Vila Real de 1958, com o  Maserati 300S "sport-protótipo", o GP de Portugal de Fórmula 1 do mesmo ano, no circuito da Boavista, aos comandos de um Vanwall , e ainda o GP de Portugal de 1959, em Monsanto, ao volante de um Cooper Climax.

Sobre o próximo Circuito Histórico da Boavista, recordamos que o programa do Grande Prémio Histórico, a realizar de 10 a 12 de Julho, compreende uma corrida para carros anteriores a 1939 (pré-war), outra para carros de Turismo e Grande Turismo anteriores 1 1966, sport-protótipos até 1971 e ainda uma demonstração de F1 Históricos. Além das previsivelmente animadas corridas da Taça de Portugal de Clássicos - que inclui a Boavista e Vila Real - com os habituais participantes do campeonato nacional da modalidade (estas todas no Domingo). Este fim de semana inclui também, no Sábado, uma corrida do CPR, Campeonato de Portugal de Resistência e os habituais troféus Uno e Punto e ainda uma "Corrida Vip", com os Seat Leon da Publiracing.

 

Carlos Gilbert / Ricardo Grilo

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