6 HORAS DE VILA REAL 1969

 

 

Perfil do Porsche 908/2 vencedor  (desenho de Ricardo Santos)

Em 1969, a corrida de Grande Turismo e Desporto foi disputada ao longo de seis longas e quentes horas, a maior duração de sempre na história do circuito transmontano.  A razão de ser da prova ter uma distância tão dilatada é porque na altura, a Comissão Organizadora do Circuito de Vila Real ambicionava que a corrida fizesse parte do Mundial de Marcas e desejavam demonstrar que conseguiam por de pé uma prova de dimensão compatível com um campeonato internacional. Por razões várias,  (falhas dos comissários, excessiva dureza da actuação policial, organizadores pouco acessíveis, péssimas comunicações e parque fechado com os membros das equipas impedidos de entrar... ou sair!) e apesar dos pilotos estrangeiros serem unânimes quanto ao interesse do que consideravam ser um belo circuito, a pretensão dos organizadores não teve seguimento. Mas não foi por isso que o circuito de Vila Real deixaria de manter o seu interesse como uma das principais provas extra-campeonato que se disputavam na Europa.

Depois de um tímido recomeço em 1966, as corridas de Grande Turismo e Desporto tinham vindo a ganhar uma crescente importância em Vila Real.  Assim, tal como no ano transacto, a lista de inscritos para a prova de 1969 era de muito bom nível, mesmo apesar de terem havido algumas faltas à partida.  Entre os que não compareceram, a principal baixa terá sido o Lola T-70 MKIII b (# SL 138) de Sid Taylor, que após ter vencido em Norisring uma semana antes, com Brian Redman ao volante , optou por não alinhar na prova transmontana afim de melhor preparar o carro para a corrida de Croft (pequeno circuito no Lincolnshire, a 180 Km de Londres, onde viria a terminar em 2º). Entre os que vieram, o favoritismo ia para o recém adquirido Porsche 908 (#908-008 ex-equipa oficial) de Alain de Cadenet, que iria ser pilotado pelo seus amigos Chris Craft e David Piper, e para o Lola T-70 MKIII b (com um motor Chevrolet V8 de 5000cc, preparado por Bartzmill) que o piloto Sul-Africano Michael Grace de Udy partilhava com Frank Gardner.  Entre os nacionais, o favoritismo repartia-se entre o Ford GT 40 de Luís Fernandes/Carlos Santos, o Porsche 906 de Filipe Nogueira/Nick Gold, outro 906 de "Janita" Andrade Villar/Nogueira Pinto e o 910 de Mário de Araújo Cabral/ André Wicky.

A corrida acabaria por ser vencida pela dupla do Porsche 908/2 patrocinado pela Sandeman, após uma longa disputa com o Lola de Udy. O duelo entre estes concorrentes já tinha começado nos treinos, onde o Lola e o Porsche tinham feito os dois melhores tempos da grelha de partida. Após a largada, estes dois carros tomaram a dianteira, seguidos pelo Alfa Romeo T33 2.5 de Teddy Pilette e pelo surpreendente Porsche 906 de Joaquim Filipe Nogueira que nitidamente começara a corrida ao ataque. Logo atrás os outros dois Porsches portugueses e o resto do pelotão. Na 4ª volta as juntas de cabeça do GT 40 de Fernandes cederiam ao reinante calor estival e pela 8ª volta, confirmando as piores presságios de Nick Gold, Filipe Nogueira despistava-se fortemente com o 906 (que viria a adquirir ao piloto britânico). Após três horas de corrida, o 908 tinha apenas um minuto e meio de avanço sobre o T-70, e a indefinição prolongar-se-ia até perto da 5ªa hora de prova. A partir daí, a estratégia e o trabalho das boxes beneficiaram os homens do Porsche. Uma última paragem de Udy retirou as hipóteses do piloto do Lola cor-de-sabonete fazer um "hat-trick" em terras do Marão.

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  Aspecto das boxes, com David Piper (a pé) e o Ford GT40 de Willie Green, seguido do Porsche 910 de André Wicky e Nicha Cabral, do Ferrari Dino 206S de Alain de Cadenet, do 908/2 vencedor, do 907 de Manfredini e Moretti, de um 910 (provavelmente o de Bill Bradley) e por fim (possivelmente) o Porsche 910 de José de La Peña e de Ben Heiderich, o importador da Porsche para Espanha.   (foto: Alexandre Pinto, via Rui Sanhudo)

   

 Imagem das boxes, com o Ford GT40 amarelo do britânico Willie Green, (na realidade tratava-se do protótipo da versão de estrada que possuía o chassis #GT40P/1013) com o qual ia ao fim do dia para o Palace Hotel de Vidago, onde pernoitava...     (foto: Alexandre Pinto, via Rui Sanhudo)

 

  O Ferrari Dino 206 S (ex-Tony Dean) de Alain de Cadenet e Mike Walton. Este 206 tinha a frente e o "capot" do motor em fibra de vidro (para poupar algum peso em relação aos originais em alumínio). Apesar de ter chegado a rodar na quarta posição, o Ferrari acabaria por se atrasar devido a problemas eléctricos. Trata-se do mesmo carro que Nicha Cabral tinha levado ao segundo posto do circuito de Montes Claros, em 1968.  (foto: Alexandre Pinto, via Rui Sanhudo)

   

Logo após ter cortado a linha de chegada, o vitorioso Porsche 908/2 de David Piper e Chris Craft é rodeado por uma entusiástica massa humana. Tinha terminado da melhor maneira o emocionante despique com o Lola T-70 de Michael d'Udy e Frank Gardner. Este Porsche 908/2 (chassis #908/2 008) era um carro praticamente novo, com uma única corrida no activo (Brands Hatch 69, 3º com Mitter e Schutz) antes de ser adquirido à equipa de fábrica, em Julho, por Alain de Cadenet. A primeira corrida em que este 908 participou após a venda foi precisamente neste circuito de Vila Real.   (foto: Alexandre Pinto, via Rui Sanhudo)

  

 O Alfa Romeo 33 de Taf Gosselin e de Claude Bourgoignie à entrada das boxes, numa rara foto a cores,  possivelmente feita  antes do início da corrida. Com um motor de 2 litros, este carro era um modelo de Grupo 4, tendo a equipa VDS alinhado também com um modelo de Grupo 6, equipado com o motor 2.5. Na época, a Alfa Romeo tinha prometido ao Conde Van der Straaten a disponibilização breve dos motores de 3 litros, mas na falta destes, a equipa limitou-se a trazer os carros, exactamente como tinham terminado as 24 Horas de Le Mans, se excluirmos a mudança de pneus e pastilhas de travões!   (foto: Alexandre Pinto, via Rui Sanhudo)

 

 Aspecto da partida para as 6 Horas de Vila Real. O Lola de Udy já desapareceu e tanto Luís Fernandes como David Piper arrancaram mal, tendo sido passados pelo Alfa Romeo de Teddy Pilette. Mais atrás, vê-se o 906 de Filipe Nogueira (que também passaria o GT40) seguido do 906 de Nogueira Pinto. Ao lado do 906 de Nogueira, adivinha-se o Porsche 907 de Manfredini e o 910 de Nicha Cabral.  Ao fim da primeira volta, a ordem de passagem era: Udy, Piper, Pilette, Filipe Nogueira, Nogueira Pinto, Nicha Cabral, Taf Gosselin, Fernandes e Manfredini.  (Foto: colecção Manuel Taboada)

   

Porsche 910 (#910-020) de Bill Bradley e de Tony Dean. A equipa britânica viria a classificar-se no último lugar do pódio, vencendo simultaneamente a classe até 2000cc. Tony Dean participava também no campeonato Can Am com um (relativamente pequeno) Porsche 908/2 e viria a tornar-se conhecido por ter conseguido vencer Road Atlanta em 1970, oferecendo o primeiro triunfo à marca alemã neste campeonato, interrompendo um domínio de 17 triunfos consecutivos da Mc Laren. Como curiosidade, Bradley guardou este 910 durante 30 anos, tendo-o vendido recentemente. Na actualidade o valor de um bom Porsche 910 varia entre os 300/350 000€, cerca de 120 vezes o valor de 1969!  (AS)

    

O Brabham BT-8 Climax de 2 litros que Peter Crossley desencantou do limbo e que partilhou em Vila Real com o seu compatriota Richard Shardlaw. Problemas de caixa obrigariam a uma primeira paragem que antecederia a desistência, por motivos que desconhecemos.   (foto: Carlos Gilbert)


 

 Mike d'Udy no Lola T-70 MKIII b (# SL 149) "verde sabonete" inscrito pela Grand Bahama Racing. Repare-se nas tomadas de ventilação periscópicas, montadas no tejadilho do habitáculo para combater o calor, característica que numa prova ou noutra, foi comum aos T-70 que Mike de Udy possuiu. O nome da equipa teria a ver com o novo domicílio do milionário sul-africano.   (foto: Carlos Gilbert)

 

O Lola T70 BRM "Spyder" de Max Wilson apareceu reconstruído e modificado pelo mecânico Paul Collier, após o acidente que o carro sofrera em Nurburgring. A nova frente, cerca de 5 cm mais baixa que a original, foi inspirada na do Lola T-163 Can Am. O carro pesava agora 700 Kg e tinha um motor BRM V-12 capaz de debitar 375 CV.  Alguns dias depois, este protótipo verde e cor de laranja correria também no circuito da "Granja do Marquês".    (foto: Carlos Gilbert)
 

  

 Autêntica "nave espacial" o Nathan 1600, de John Markey e José Baptista dos Santos. Este pequeno protótipo com motor de Hillman Imp 998cc com cerca de 115 BHP para somente 300 kg de peso, era totalmente construído em madeira, mas... estava a cair de podre! O Costin-Nathan (inscrito como Nathan 1600) veio a Vila Real por insistência de José Baptista dos Santos que era um grande apaixonado da mecânica IMP e fez uma combinação com o proprietário do carro (J.Markey) para que o carro viesse, pois há anos que o desejava conduzir. Frank Costin, o projectista do carro (e pai da Cosworth) especializou-se durante a 2ª Guerra Mundial na construção de planadores Horsa, em madeira (e contraplacado de madeira). Em 1965 projectou e construiu este protótipo em madeira e contraplacado de madeira, para o piloto Roger Nathan, que além de emprestar o seu nome à marca Costin-Nathan, também correu com um destes carros em Le Mans de 1967, inscrito como Costin-Nathan Hillman GT.   (foto: Carlos Gilbert)

   

 Nicha Cabral aos comandos do Porsche 910 de André Wicky (concessionário Porsche em Lausanne) que saiu do oitavo posto da grelha, mas acabaria por desistir devido à rotura de um tubo de óleo. No ano seguinte, com um Porsche 907 (#907-005), a mesma dupla Luso-Helvética conseguiria triunfar na classe até 2000cc, nos 1000 Km de Monza e de Nurburgring.   (foto: Carlos Gilbert)

  

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Classificação

  Chris Craft / David Piper               Porsche 908/02  3.0

  Mike de Udy / Frank Gardner       Lola T-70 MK III b  5.0

Bill Bradley / Tony Dean               Porsche 910  2.0

Corrado Manfredini / "Nomex"       Porsche 907/8   2.2

Peter Brown / Clive Baker             Chevron B8 BMW 2.0

Alain de Cadenet / Mike Walton    Ferrari Dino 206 S  2.0

Nogueira Pinto / Andrade Villar      Porsche 906   2.0

Mark Konig / Tony Lafranchi          Nomad - BRM Mk2

James Tangye / Chris Smith         Chevron B8 BMW  2.0

10º Paul Vestey / Peter Sadler          Porsche 911 S  2.0

11º Américo Nunes / Evr.Saraiva       Porsche 911 S  2.0

12º M.Costa / Pinto Bastos               Lotus Elan  1.6

13º Ernesto Neves / M.Rau               Lotus 47  1.6

14º J.de La Peña/ Ben Heidrich         Porsche 907  2.2

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Texto de Ricardo Grilo, baseado na reportagem das revistas do ACP, e Autosport britânica.  A maioria das fotos são originais de Carlos Gilbert, e as restantes fazem parte dos arquivos de José Mota Freitas, Gérard Barathieu e Manuel Taboada.  As legendas são de RG/CG/MT/JMF. 

Je veut remercier en particulier Gérard Barathieu qui nous a beaucoup aidée avec ses commentaires et  enseignements

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